Teletrabalho: o que muda com a reforma laboral 2026
Percebe o que a reforma laboral 2026 queria mudar no teletrabalho e porque nada mudou: a proposta foi chumbada a 19 de junho de 2026. Vale a lei atual.
A reforma laboral Trabalho XXI queria mexer nas regras do teletrabalho, para adaptar a lei ao modelo híbrido, ou seja, à mistura de dias em casa e dias no escritório. Mas a proposta foi chumbada na Assembleia da República a 19 de junho de 2026, na votação na generalidade. Nada entrou em vigor: vale a lei atual.
Este guia mostra, ponto a ponto, o que a lei diz hoje e o que a reforma queria mudar. Cada mudança tem a etiqueta [Proposta] e caiu com o chumbo: nenhuma está em vigor.
Primeiro, o que é teletrabalho na lei
O Art. 165.º define teletrabalho como trabalhares para a tua empresa, num local à tua escolha, com o computador e a internet. Pode ser total (sempre fora do escritório) ou parcial.
Desde a Lei n.º 83/2021, há um conjunto de direitos fixos: acordo escrito obrigatório (Art. 166.º), a empresa paga o equipamento e as despesas (Art. 168.º), igualdade de direitos com quem está no escritório (Art. 169.º) e o direito à desconexão (Art. 199.º-A).
Se queres perceber quem pode pedir teletrabalho hoje e como se faz o acordo, lê primeiro o guia base:
→ Tenho direito a teletrabalho? Quem pode pedir e como
Este guia é sobre a parte seguinte: o que a reforma queria mudar nessas regras antes de ser chumbada.
O modelo híbrido: a grande bandeira da reforma
O Governo apresentava a reforma do teletrabalho como uma adaptação ao modelo híbrido. O argumento oficial era que a lei atual foi pensada para teletrabalho permanente e não responde bem à mistura de dias em casa e no escritório.
Há aqui um pormenor importante. O Art. 166.º n.º 3 já permite acordar um "regime de permanência ou de alternância" entre trabalho à distância e presencial. Ou seja, o híbrido já é legal e já é o mais usado em Portugal. A reforma dizia querer afinar as regras à volta deste modelo, não inventá-lo.
[Interpretação corrente:] na prática, a mudança do híbrido abre a porta às outras alterações em baixo (desconexão, recusa e despesas), que são as que mais mexem com os teus direitos.
Direito à desconexão: a exceção que muda o jogo
Hoje (Art. 199.º-A): o empregador tem o dever de se abster de contactar o trabalhador no período de descanso, salvo força maior. Quem for tratado pior por usar o direito ao descanso está protegido contra discriminação (Art. 25.º). A violação é contraordenação grave.
[Proposta] a reforma mantinha o direito à desconexão, mas acrescentava uma exceção: deixavam de estar proibidos os contactos feitos fora do horário com indicação expressa de que estás dispensado de responder. Com o chumbo, esta exceção não existe: a proibição do Art. 199.º-A vale por inteiro.
[Interpretação corrente:] na teoria, a empresa só pode mandar a mensagem se disser que não precisas de responder já. Na prática, o risco é a pressão de ver a mensagem na mesma e sentir que tens de a abrir. O texto exato da exceção só fica fechado quando a lei for publicada no Diário da República.
Recusa da empresa: mais fácil dizer que não
Hoje (Art. 166.º): a lei separa dois casos.
- Se for a empresa a propor o teletrabalho, podes recusar sem dar justificação, e a recusa não pode levar a despedimento nem a sanção (n.º 6).
- Se fores tu a propor e a tua função for compatível com teletrabalho, a empresa só pode recusar por escrito e com o fundamento da recusa (n.º 7).
Esse n.º 7 é a tua proteção: obriga a empresa a explicar porquê.
[Proposta] a reforma queria retirar essa obrigação de fundamentar por escrito, tornando mais fácil à empresa recusar um pedido de teletrabalho. Com o chumbo, a obrigação mantém-se. Continua também o direito reforçado dos pais e cuidadores (Art. 166.º-A), que segue regras próprias e mais fortes.
Despesas: quem paga a internet e a luz
Hoje (Art. 168.º): a empresa é responsável pelo equipamento e compensa integralmente as despesas adicionais que comprovadamente tens por trabalhar em casa. Inclui o aumento da energia, a internet e a manutenção dos equipamentos (n.º 2). Essa compensação é custo para a empresa e não conta como teu rendimento para impostos (n.º 5).
[Proposta] a reforma queria abrir esta matéria à negociação. A forma de compensar as despesas passaria a poder ser definida em contrato coletivo ou no acordo de teletrabalho assinado entre ti e a empresa. Com o chumbo, mantém-se a regra atual: a empresa compensa integralmente as despesas adicionais comprovadas (Art. 168.º n.º 2).
[Interpretação corrente:] o ponto a vigiar é se o valor combinado cobre mesmo o que gastas. Põe sempre as despesas por escrito no acordo, com um número concreto.
Sabe os teus direitos no teletrabalho hoje
A reforma caiu e a lei não mudou. Confirma o que a lei te garante: acordo escrito, despesas pagas pela empresa, igualdade de tratamento e desconexão. O guia base explica tudo com exemplos.
O que não muda (por agora)
- A lei atual continua em vigor. Com o chumbo de 19 de junho de 2026, não há reforma para publicar: valem os Arts. 165.º a 171.º e 199.º-A como estão.
- O acordo escrito continua obrigatório (Art. 166.º n.º 2). Sem papel, não há teletrabalho válido.
- O direito reforçado dos pais e cuidadores (Art. 166.º-A) mantém-se.
- A igualdade de tratamento (Art. 169.º) mantém-se: mesmo salário, mesma progressão, mesmos benefícios de quem está no escritório.
O que deves fazer já
- Não mudes nada com base em notícias. A proposta caiu: os teus direitos atuais valem na íntegra.
- Confirma o teu acordo de teletrabalho. Vê se tem dias definidos, despesas com valor concreto e regras de contacto.
- Guarda prova dos contactos fora de horas. Se a empresa insistir em contactar-te no descanso, regista (Art. 199.º-A).
- Acompanha a tua convenção coletiva. Se uma futura reforma avançar, muita coisa do teletrabalho pode passar a ser decidida aí.
Se a empresa violar o direito à desconexão ou outras regras, podes apresentar queixa:
→ Como fazer queixa à ACT em 10 minutos
Para veres o pacote inteiro da reforma e o que aconteceu na votação:
→ Trabalho XXI — o que muda no Código do Trabalho
→ Reforma laboral chumbada: o que aconteceu na votação
Este guia é informativo e não substitui aconselhamento jurídico individualizado.
Perguntas frequentes
O teletrabalho vai mudar em 2026?+
A empresa vai poder contactar-me fora de horas?+
Vou deixar de ter direito à desconexão?+
A empresa vai poder recusar-me o teletrabalho mais facilmente?+
Quem paga a internet e a luz com a reforma?+
Os pais com filhos até 8 anos continuam com direito a teletrabalho?+
Já posso fazer teletrabalho híbrido hoje?+
Quando entra em vigor a reforma do teletrabalho?+
Fontes oficiais
6 referências- Código do Trabalho — texto consolidado (DRE)
- Lei n.º 83/2021, de 6 de dezembro — regime do teletrabalho (DRE)
- Reforma laboral: teletrabalho passa a adaptar-se ao modelo híbrido — Governo de Portugal
- Proposta de Lei Trabalho XXI — Governo de Portugal
- Assembleia da República — atividade parlamentar
- Autoridade para as Condições do Trabalho — teletrabalho
Este guia é informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para casos concretos, valida com um advogado ou entidade oficial. Encontraste um erro? Avisa-nos em ola@despacho.pt.