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Guia rápido

Como fazer queixa à ACT em 10 minutos (guia 2026)

Denuncia salários em atraso, assédio, falta de segurança ou outras irregularidades laborais à ACT. Online, gratuito, anónimo possível. Passo a passo prático com bases legais.

A ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho) é a inspecção do trabalho do Estado. Recebe queixas online, presenciais ou por escrito — anónimas, confidenciais ou identificadas. Custo zero, sem advogado.

Em 10 minutos do telemóvel ou do computador podes denunciar salários em atraso, horas extra não pagas, assédio, falta de segurança, falsos recibos verdes ou outras irregularidades laborais. Este guia explica como fazer, o que incluir, e o que esperar depois.

Antes de começar: o que a ACT trata (e o que não trata)

A ACT existe para fiscalizar o cumprimento da lei laboral pelas empresas. Faz inspecções, levanta autos e aplica coimas (Art. 13.º da Lei 107/2009). Nos falsos recibos verdes, se a empresa não regularizar em 10 dias, a ACT envia o caso ao Ministério Público, que avança com a acção de reconhecimento do contrato de trabalho (Art. 15.º-A da Lei 107/2009 e Art. 12.º CT).

Casos típicos que a ACT trata:

  • Salários em atraso ou em valor inferior ao acordado.
  • Horas extra não pagas ou pagas abaixo do legal.
  • Subsídios de férias e Natal não pagos.
  • Subsídio de alimentação devido por CCT e em falta.
  • Falta de contrato escrito quando a lei o exige.
  • Falsos recibos verdes (Art. 12.º CT).
  • Assédio moral ou sexual no trabalho.
  • Discriminação (idade, sexo, deficiência, paternidade).
  • Falta de equipamento de protecção, condições de segurança ou formação obrigatória.
  • Não pagamento ou desconto irregular para a Segurança Social.
  • Trabalho não declarado.

Casos que a ACT NÃO trata:

  • Despedimento ilícito. É competência do Tribunal de Trabalho. A ACT pode fiscalizar o procedimento mas não declara o despedimento ilícito.
  • Indemnização individual. A ACT aplica coima ao Estado, não te paga a ti. Para receberes indemnização, vais a tribunal.
  • Conflitos puramente contratuais. Se a empresa cumpriu a lei mas tu achas que devia pagar mais por mérito ou prática, isso resolve-se na empresa ou em tribunal cível.
  • Cobrança coerciva. A ACT não envia oficial de justiça. A cobrança forçada faz-se em execução judicial.

As 3 formas de fazer queixa (e qual escolher)

FormaQuanto demoraQuando faz sentido
Online (portal ACT)10-15 minA maioria dos casos. É rastreável.
Presencial (serviços ACT)30-60 min + viagemTens muita prova em papel para entregar. Caso urgente que precisa de orientação.
Carta registada (correio)15 min + envioNão tens conforto digital. Queres prova de envio (AR).

A queixa online é a recomendada para 9 em cada 10 casos. É registada num número único de processo, podes anexar PDFs até ao limite do formulário e a ACT consegue distribuir mais rapidamente para o serviço regional competente.

[Interpretação corrente:] presencial só vale a pena quando o caso é grave e queres falar com um inspector cara-a-cara antes de decidir. Carta registada só se não tens computador nem ajuda — é o caminho mais lento.

Passo a passo online (10 minutos cronómetro)

A queixa online faz-se no portal www.act.gov.pt, na secção dedicada a denúncias e reclamações. O fluxo típico tem 4 passos.

Passo 1 — Tipo de denúncia (1 minuto)

Escolhes uma de várias categorias. As mais usadas são:

  • Tempo e duração de trabalho (horas extra, descansos).
  • Retribuição (salários, subsídios).
  • Segurança e saúde.
  • Discriminação e assédio.
  • Trabalho não declarado.
  • Outras (recibos verdes, etc.).

Dica: se não tens a certeza, escolhe a que melhor descreve o problema principal. O inspector pode reclassificar.

Passo 2 — Identificação da empresa (2 minutos)

Precisas:

  • Nome da empresa (ou estabelecimento).
  • NIF (se souberes).
  • Morada do local de trabalho.
  • Sector de actividade (CAE ou descrição).
  • Número aproximado de trabalhadores (microempresa, PME, grande).

A morada do local de trabalho é mais importante do que a sede. A ACT distribui o caso pelo serviço regional dessa morada.

Passo 3 — Descrição dos factos (5 minutos)

Esta é a parte que faz a diferença. Sê factual e cronológico.

  • Data de início do problema.
  • Datas das infracções (com o máximo de precisão possível).
  • Nome de superiores hierárquicos envolvidos.
  • Valores em causa (salários em atraso, horas não pagas).
  • Documentos que tens em teu poder.

Evita:

  • Adjectivos emocionais ("a empresa é uma vergonha").
  • Especular sobre o que a empresa pensa ou planeia.
  • Acusar pessoas sem ligação directa ao caso.

Inclui:

  • Provas em PDF (recibos, contratos, mensagens, emails).
  • Nomes de colegas que possam testemunhar (com consentimento).

Passo 4 — Identificação do denunciante (1 minuto)

Escolhes uma de três opções:

  • Anónima — não dás dados. Recebes apenas confirmação de submissão.
  • Confidencial — dás dados à ACT, ela não os passa à empresa. Recomendado.
  • Identificada — a empresa pode saber quem és.

Submetes. Recebes número de processo. Imprime ou guarda o comprovativo.

O que incluir na queixa (o que faz a diferença em tribunal)

Mesmo que a queixa fique pela ACT, há sempre hipótese de evoluir para tribunal. Documenta como se fosse para juiz ler.

Lista mínima de prova:

  1. Contrato de trabalho (se tens cópia escrita).
  2. Recibos de vencimento dos últimos 12 meses.
  3. Mapas de horário ou registo de horas (foto ao livro de ponto, capturas de software).
  4. Comunicações escritas com a empresa sobre o problema (emails, WhatsApp, mensagens em apps internas).
  5. Testemunhas — nomes e contactos de colegas que viveram o mesmo (com consentimento).
  6. Cronologia de factos — quando começou, episódios chave, escalada.

Se já existiu interpelação por escrito ao empregador a pedir regularização, anexa também. Mostra à ACT que tentaste primeiro a via interna — e ao tribunal que houve oportunidade de regularização recusada.

Anónima, confidencial ou identificada?

A escolha não é trivial. Pesa estes três pontos:

  • Poder da ACT. Anónima limita o trabalho do inspector — não pode pedir clarificações, anexos extra ou testemunhar contigo. Confidencial é o melhor equilíbrio.
  • Risco de retaliação. Se a empresa é hostil, pede confidencialidade. Mesmo assim, alguma intuição pode ligar a denúncia a ti — sobretudo se já reclamaste internamente.
  • Hipótese de tribunal. Se acabares em tribunal, vais identificar-te. Identificação desde o início simplifica o processo e dá mais credibilidade.

[Interpretação corrente:] na maioria dos casos, confidencial é a escolha certa. Só optar por anónima se tens medo concreto de retaliação física ou de pressão imediata.

O que acontece depois (timeline da ACT)

A lei não fixa um prazo para a ACT responder a quem faz a queixa. O que a Lei 107/2009 diz sobre o processo:

  1. O inspector levanta auto de notícia se viu a infracção pessoalmente, ou faz uma participação com provas e 2 a 5 testemunhas se não a viu (Art. 13.º).
  2. Se a ACT abrir processo de contraordenação, a instrução tem um prazo de 60 dias, que pode ser prorrogado (Art. 24.º).
  3. O procedimento só prescreve 5 anos depois da infracção (Art. 52.º).

[Interpretação corrente:] se passar muito tempo sem notícias, pede o ponto da situação ao serviço da ACT onde entregaste a queixa, com o comprovativo na mão.

Limites: o que a ACT pode e não pode fazer

A ACT é poderosa em matéria de fiscalização, mas tem limites bem definidos.

Pode:

  • Fazer inspecções às empresas.
  • Levantar auto de notícia quando verifica a infracção pessoalmente, ou participação com provas e 2 a 5 testemunhas quando não a verifica (Art. 13.º da Lei 107/2009).
  • Aplicar coimas.
  • Em falsos recibos verdes, dar 10 dias à empresa para regularizar e, se não regularizar, enviar o caso ao Ministério Público, que avança com a acção de reconhecimento do contrato de trabalho (Art. 15.º-A da Lei 107/2009).

Não pode:

  • Mandar a empresa pagar-te a ti directamente.
  • Declarar despedimento ilícito (é o tribunal).
  • Anular cláusulas contratuais (é o tribunal).
  • Forçar a empresa a celebrar contrato de trabalho (é o tribunal).
  • Cobrar coercivamente os valores em dívida.

Por isso a ACT é meio de pressão, não fim. Funciona quando a empresa quer evitar coima e regulariza. Quando a empresa não cede, o caminho é tribunal — e aí a queixa à ACT serve como prova adicional.

E se o empregador retaliar?

A retaliação é proibida por lei. O Art. 331.º do Código do Trabalho diz que é abusiva a sanção por o trabalhador ter reclamado legitimamente contra as condições de trabalho ou, em geral, por exercer os seus direitos (n.º 1 als. a) e e)). [Interpretação corrente:] fazer queixa à ACT cabe aqui.

O despedimento ou outra sanção presume-se abusivo quando acontece (Art. 331.º n.º 2):

  1. Até 6 meses depois da reclamação ou do exercício do direito.
  2. Até 1 ano depois de uma denúncia ligada a igualdade, não discriminação ou assédio.

Se o despedimento for abusivo, podes escolher entre voltar ao posto de trabalho ou uma indemnização (Art. 331.º n.º 4). A sanção abusiva é contraordenação muito grave (n.º 7).

Se acontecer, podes rescindir com justa causa (Art. 394.º CT — assédio ou violação de garantias) e pedir:

  • Indemnização entre 15 e 45 dias × ano de antiguidade, mínimo 3 meses.
  • Subsídio de desemprego (rescisão por justa causa = desemprego involuntário).
  • Danos não patrimoniais em tribunal.

Minuta: queixa à ACT por salários em atraso

Modelo pronto a preencher para denunciar salários em falta. Identificada, confidencial ou anónima. Cita os artigos do CT e dá poder à inspecção.

Gerar queixa →

Minuta: queixa interna por assédio (passo prévio)

Antes de ir à ACT pelo assédio, costuma fazer-se queixa interna formal ao empregador. Modelo de queixa interna por escrito.

Gerar queixa interna →

Como ligar tudo

A queixa à ACT raramente é peça única. Funciona melhor encadeada com outras ferramentas. Resumo dos caminhos típicos:

Salários em atraso → interpelação à empresa → queixa à ACT → rescisão justa causa → subsídio de desemprego.

Assédio → queixa interna por escrito → queixa à ACT → rescisão justa causa → subsídio de desemprego.

Falsos recibos verdes → recolher provas → queixa à ACT (anónima possível) → ACT instaura acção judicial → reclassificação retroactiva.

Não tens de fazer tudo. Escolhe a peça que te ajuda agora:

Perguntas frequentes

A ACT pode visitar a empresa por causa da minha queixa?+
Pode. A ACT é a inspecção do trabalho do Estado e fiscaliza as empresas. Quando o inspector verifica pessoalmente uma infracção, levanta auto de notícia; quando não a verifica pessoalmente, faz uma participação com as provas e 2 a 5 testemunhas (Art. 13.º da Lei 107/2009). Nem todas as queixas levam a inspecção presencial — em casos simples, a ACT pode notificar a empresa por escrito para regularizar primeiro.
Sou obrigado a dar o meu nome?+
Não. A ACT aceita queixa anónima, confidencial e identificada. Anónima protege totalmente mas dá menos poder à ACT (não pode pedir clarificações nem prova adicional). Confidencial é o melhor equilíbrio: identificas-te à ACT, ela protege os teus dados perante a empresa. Identificada é só para casos em que não te importas que a empresa saiba.
A ACT diz à empresa quem fez a queixa?+
Em regra, não. A ACT permite pedir confidencialidade na queixa. [Depende do caso:] se o caso avançar e o teu testemunho for necessário, podes ser indicado como testemunha: a participação da ACT leva 2 a 5 testemunhas (Art. 13.º n.º 4 da Lei 107/2009). Se isso te preocupa, diz na queixa que só aceitas ser identificado com o teu acordo.
Quanto tempo demora a ACT a actuar?+
A lei não fixa um prazo para a ACT responder a quem faz a queixa. Depende do caso e da carga de trabalho da ACT. Se a ACT abrir processo de contraordenação, a instrução tem um prazo de 60 dias, que pode ser prorrogado (Art. 24.º da Lei 107/2009). [Interpretação corrente:] guarda o comprovativo da queixa e pergunta pelo estado do processo se não tiveres notícias.
E se eu já saí da empresa, ainda vale a pena denunciar?+
Vale. O procedimento por contraordenação só prescreve 5 anos depois da infracção (Art. 52.º da Lei 107/2009). Já os teus créditos laborais (salários em atraso, horas extra não pagas) prescrevem 1 ano depois do dia seguinte ao fim do contrato (Art. 337.º n.º 1 CT). Mesmo que já não consigas recuperar tudo, a queixa pode levar a uma inspecção que protege os colegas que ficaram.
A ACT pode obrigar a empresa a pagar-me o que me deve?+
Não directamente. A ACT aplica coimas e notifica para regularizar — não tem poder para mandar a empresa pagar-te a ti. Para isso precisas de tribunal de trabalho ou, em casos de salários em atraso, podes rescindir com justa causa (Art. 394.º CT) e pedir indemnização. A queixa à ACT é frequentemente usada como pressão para a empresa pagar antes de o caso escalar — funciona porque a empresa quer evitar a coima.
Posso ser despedido por fazer queixa?+
Não pode legalmente. O Art. 331.º do Código do Trabalho diz que é abusiva a sanção por reclamares legitimamente contra as condições de trabalho ou por exerceres os teus direitos. Um despedimento até 6 meses depois presume-se abusivo; se a queixa for sobre igualdade, discriminação ou assédio, o prazo é de 1 ano (Art. 331.º n.º 2). Se acontecer, podes rescindir com justa causa (Art. 394.º) com indemnização e direito a subsídio de desemprego.
Em que casos a coima é mais alta?+
Depende da gravidade, do volume de negócios da empresa e de ter havido negligência ou dolo. As coimas contam-se em UC (unidade de conta processual). Uma contraordenação muito grave vai de 20 UC, numa empresa pequena por negligência, até 600 UC, numa empresa com 10 milhões de euros ou mais de volume de negócios e com dolo (Art. 554.º n.º 4 CT). Não pagar o salário a tempo é contraordenação grave (Art. 278.º n.º 6 CT). Em caso de reincidência, os limites da coima sobem um terço (Art. 561.º n.º 2 CT).

Fontes oficiais

6 referências

Este guia é informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para casos concretos, valida com um advogado ou entidade oficial. Encontraste um erro? Avisa-nos em ola@despacho.pt.