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Licença sem vencimento — como pedir e o que muda no contrato

Tudo sobre licença sem retribuição (Art. 317.º CT): quando a empresa pode recusar, prazo de 90 dias, antiguidade, regresso garantido e a regra especial para formação. Modelo de pedido.

O que é a licença sem vencimento

A licença sem vencimento — ou licença sem retribuição, como diz a lei — é uma pausa no contrato de trabalho durante a qual o trabalhador não trabalha e a empresa não paga.

O contrato fica suspenso, não termina. Tu continuas a ser trabalhador da empresa, mantens o número de antiguidade, mantens o direito ao teu lugar — só não recebes salário, nem subsídios, nem fazes descontos para a Segurança Social durante esse período.

Está prevista no Art. 317.º do Código do Trabalho.

Os dois tipos de licença sem vencimento

O Art. 317.º cobre dois cenários muito diferentes — é importante perceber em qual estás.

1. Licença genérica (Art. 317.º n.º 1) — depende de acordo

"Por acordo escrito, o empregador pode atribuir ao trabalhador, a pedido deste, licença sem retribuição."

Aqui não tens direito, tens uma possibilidade. A empresa pode dizer não sem dar explicações. O motivo do pedido pode ser qualquer um:

  • Viagem.
  • Cuidar de familiar doente.
  • Projecto pessoal.
  • Outro emprego temporário noutra área.
  • Esgotamento (já existe a baixa médica, mas há quem prefira a licença).

Como depende de acordo, tudo é negociável: duração, datas, condições de regresso, se tens de comunicar antes se vais querer prolongar.

2. Licença para formação (Art. 317.º n.º 2) — é um DIREITO

"O trabalhador tem direito a licença sem retribuição de duração superior a 60 dias para frequência de curso ministrado em estabelecimento de ensino ou de formação profissional."

Esta licença só existe se cumprires todos estes requisitos:

  • Vais frequentar um curso ministrado por estabelecimento de ensino ou de formação profissional (universidade, politécnico, centro de formação certificado).
  • Duração superior a 60 dias.
  • Pedido feito com 90 dias de antecedência, por escrito.
  • Não estás em nenhuma das 5 situações de recusa (ver abaixo).

Aqui a empresa não pode recusar a seu bel-prazer. Só pode recusar com base num dos 5 motivos taxativos.

As 5 situações em que a empresa pode recusar a licença para formação

O Art. 317.º n.º 4 lista as 5 únicas razões válidas para a empresa recusar a licença de formação:

#MotivoArtigo
1A empresa ofereceu formação adequada para o mesmo fim nos últimos 24 meses317.º n.º 4 a
2O trabalhador tem menos de 3 anos de antiguidade317.º n.º 4 b
3O pedido não foi feito com 90 dias de antecedência317.º n.º 4 c
4Micro ou pequena empresa em que não há possibilidade de substituição317.º n.º 4 d
5Trabalhador em cargo de direcção, chefia ou função qualificada sem substituto disponível sem grave prejuízo317.º n.º 4 e

Fora destas 5 razões, a recusa é ilegal. Se acontecer, podes:

  1. Pedir por escrito a fundamentação detalhada.
  2. Apresentar queixa à ACT por violação do Art. 317.º.
  3. Em casos extremos, recorrer ao tribunal de trabalho.

Como pedir — o que tem de ter o pedido

O pedido deve ser feito por escrito, em duplicado (uma cópia para a empresa carimbar como recebida). Inclui:

  • Identificação do trabalhador (nome, cargo, número mecanográfico se houver).
  • Datas pretendidas (início e fim).
  • Motivo (na licença genérica é opcional, na de formação é obrigatório anexar comprovativo de inscrição).
  • Compromisso de regresso na data prevista.
  • Indicação de contacto para a empresa responder.
  • Para a licença de formação: certificado de inscrição no curso + duração + carga horária.

Forma de envio: entrega em mão com cópia carimbada ou carta registada com aviso de recepção. Email só vale se houver confirmação escrita da empresa.

O que muda no contrato durante a licença

Durante a licença sem vencimento (Art. 317.º n.º 5):

  • Não recebes salário nem subsídios (férias, Natal, refeição).
  • Não fazes descontos para a Segurança Social nem IRS.
  • Não trabalhas para a empresa nem podes ser convocado.
  • Continuas trabalhador — não estás despedido nem desempregado.
  • A antiguidade conta (Art. 317.º n.º 4 — para efeitos do Código do Trabalho).
  • Mantens direito ao lugar quando regressares (Art. 317.º n.º 5).
  • Não cumpres o dever de assiduidade nem o de execução do trabalho, mas mantens os deveres de lealdade, sigilo e respeito (Art. 128.º).

Pode trabalhar para outra empresa durante a licença?

A resposta curta é: sim, em princípio. O contrato está suspenso, não cessa, e tu não tens dever de prestar trabalho à empresa.

Mas há 3 limites importantes:

  1. Concorrência directa. Não podes ir trabalhar para uma empresa concorrente no mesmo sector. Isto viola o dever de lealdade (Art. 128.º n.º 1 al. f) e pode dar justa causa de despedimento quando regressares. [Interpretação corrente:] consultoria pontual num sector totalmente diferente, projecto pessoal sem ligação ao mercado da empresa, ou estágio no estrangeiro são em regra aceitáveis.
  2. Cláusulas contratuais activas. Lê o teu contrato. Se tem cláusula de exclusividade ou de não concorrência, essa cláusula pode continuar em vigor durante a licença. Pede autorização escrita antes. Confirma também se a cláusula é sequer válida no guia do pacto de não concorrência.
  3. Combinação prévia. O mais prudente é falar com a empresa no momento do pedido e dizer claramente: "Vou usar este tempo para tirar um curso e fazer freelancing em [área]." Se a empresa concorda, ficas com cobertura. Sem combinação, qualquer trabalho paralelo é potencialmente conflituoso.

Voltar ao trabalho — o que esperar

O Art. 317.º n.º 5 garante o direito ao lugar. Isto significa:

  • Mesma categoria profissional que tinhas antes.
  • Mesmo salário ou superior (se a CCT subiu durante a tua ausência, tens direito ao novo valor).
  • Mesmo posto de trabalho, salvo reorganização interna que afecte equipas inteiras (não só tu).

Se a empresa, no regresso:

  • Te coloca numa categoria inferior — é violação contratual.
  • Te oferece salário inferior — é violação do princípio da irreversibilidade.
  • Te despede ao fim de uma semana sem justa causa — é despedimento ilícito.
  • Te empurra para mútuo acordo "porque já não tens lugar" — é abuso.

Nestes casos, podes:

  • Recusar a mudança e exigir o lugar antigo por escrito.
  • Rescindir com justa causa (Art. 394.º n.º 2), com direito a indemnização de 15-45 dias × ano + subsídio de desemprego.
  • Apresentar queixa à ACT.

Diferenças para a Função Pública

Se trabalhas na administração do Estado, numa região autónoma ou numa autarquia, as regras não são as do Art. 317.º CT. Aplica-se a Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas — Lei 35/2014 (LTFP), Arts. 280.º a 283.º. Atenção: as entidades públicas empresariais (com "E.P.E." no nome) estão fora da LTFP (Art. 2.º n.º 1 al. b) LTFP).

Diferenças principais:

TemaPrivado (CT)Função Pública (LTFP)
Base legalArt. 317.º CTArts. 280.º a 283.º LTFP
Licença geralO empregador pode conceder (Art. 317.º n.º 1)O serviço pode conceder (Art. 280.º n.º 1)
Mais de 60 dias para formaçãoDireito, com recusas previstas na lei (Art. 317.º n.os 2 e 3)Direito, com recusas previstas na lei (Art. 280.º n.os 2 a 4)
RegressoRetomas o teu trabalho (Art. 295.º n.º 4)Menos de um ano: direito a um posto de trabalho no serviço. Um ano ou mais: podes ter de esperar por vaga no mapa de pessoal (Art. 281.º n.os 4 e 5)
Acompanhar cônjuge no estrangeiroPor acordoDireito específico (Art. 282.º n.º 1)
AntiguidadeConta (Art. 295.º n.º 2)Não conta, salvo licenças de interesse público (Art. 281.º n.os 2 e 3)

As outras diferenças da função pública (35 horas, férias, contrato a termo) estão no guia funcionário público: o Código do Trabalho aplica-se a mim?.

5 erros comuns que custam dinheiro ou o lugar

  1. Acordo verbal. Sem documento escrito, a empresa pode dizer mais tarde que nunca autorizou e tratar a tua ausência como faltas injustificadas — caminho directo para despedimento por justa causa (Art. 351.º n.º 2 al. g, 5 faltas seguidas).
  2. Confundir licença genérica com licença para formação. Se vais tirar um mestrado, podes ter direito ao abrigo do n.º 2 — não dependes de bem-querer da empresa. Pede explicitamente nesse regime para teres protecção.
  3. Não comunicar trabalho paralelo na concorrência. Volta o gerente, descobre, e tens nota de culpa. Avisa antes ou escolhe outro projecto.
  4. Esquecer os descontos para a Segurança Social. Uma licença de 1 ano sem descontos pode atrasar a tua reforma em 12 meses e fazer-te perder o prazo de garantia para o subsídio de desemprego. Pondera o seguro social voluntário.
  5. Não confirmar a data exacta de regresso por escrito. No mês anterior ao regresso, envia email a confirmar: "Confirmo regresso ao serviço no dia [Data], na função de [Cargo], no horário habitual." Evita mal-entendidos.

Como ligar tudo

Se estás aqui agora, é provável uma destas razões:

  • Vais pedir e queres saber se a empresa pode recusar. Olha as 5 situações taxativas (n.º 4) — só se aplicam à licença de formação. Para a genérica, a empresa pode recusar livremente.
  • Já pediste e foi recusada injustamente. Pede fundamentação escrita, e se for licença de formação fora dos 5 motivos, queixa à ACT.
  • Estás de licença e a empresa quer despedir-te. Não te podem despedir por causa da licença. Se inventarem outro motivo, é despedimento ilícito — calcula a indemnização para perceber o que está em jogo.
  • Estás a planear uma pausa longa e queres alternativas. Confronta a licença sem vencimento com o mútuo acordo (sais com indemnização e direito a subsídio de desemprego) — em alguns casos sai-te melhor financeiramente.

Calcula o que recebes se a empresa te despedir

Se durante ou depois da licença a empresa te quiser dispensar, vê a indemnização a que tens direito (Art. 366.º CT).

Abrir calculadora →

Mútuo acordo — direitos que não te podem esconder

Alternativa frequente à licença sem vencimento: sair com indemnização + subsídio de desemprego.

Ler o guia →

Carta de saída do emprego

Se em vez de pausa decidires sair, monta a tua denúncia em 3 minutos com o builder interactivo.

Abrir minuta →

Perguntas frequentes

Quanto tempo posso pedir de licença sem vencimento?+
A lei não fixa um limite máximo. O Art. 317.º n.º 1 do Código do Trabalho diz que o empregador pode atribuir licença sem retribuição a pedido do trabalhador, por acordo escrito, pelo prazo que ambos acordarem. Há quem peça 3 meses, 1 ano ou 2 anos. O prazo é negociado caso a caso. Para o caso específico de formação que dá direito à licença (Art. 317.º n.º 2), a lei já impõe que tenha duração superior a 60 dias.
A empresa é obrigada a aceitar?+
Não, em regra. A licença sem retribuição genérica (Art. 317.º n.º 1) depende de acordo entre as duas partes — a empresa pode recusar sem ter de justificar. A excepção é a licença para formação prevista no n.º 2: aí o trabalhador tem direito a recusa fundamentada apenas em 5 motivos taxativos (formação adequada nos últimos 24 meses, menos de 3 anos de antiguidade, pedido sem 90 dias de antecedência, micro ou pequena empresa sem substituto, ou cargo de direcção/qualificado sem substituição possível).
Quanto tempo antes tenho de avisar?+
Para a licença genérica não há prazo legal mínimo — é o que combinares com a empresa. Para a licença para formação (Art. 317.º n.º 2), o pedido tem de ser feito com a antecedência mínima de 90 dias face à data em que queres começar. Mesmo na licença genérica, recomenda-se sempre 60 a 90 dias para a empresa ter tempo de se organizar e não usar a falta de aviso como motivo para recusar.
Conta para a antiguidade?+
Sim. O Art. 317.º n.º 4 diz expressamente que o período de licença sem retribuição conta-se para efeitos de antiguidade. Isto é importante para a indemnização em caso de despedimento, para os escalões de aviso prévio e para o cálculo de prémios de antiguidade na CCT. Mas atenção: para o subsídio de desemprego e para a reforma da Segurança Social não conta, porque durante a licença não há descontos. [Interpretação corrente:] alguns trabalhadores fazem descontos voluntários à Segurança Social para não perder este tempo.
Posso trabalhar noutro sítio durante a licença sem vencimento?+
Sim, em princípio. O contrato fica suspenso, não cessa. Mas há dois cuidados: (1) não podes ir trabalhar para a concorrência directa, ou estarás a violar o dever de lealdade (Art. 128.º n.º 1 al. f) — pode dar justa causa de despedimento quando regressares; (2) lê o teu contrato, porque muitos têm cláusulas de exclusividade ou de não concorrência que continuam em vigor mesmo durante a licença. Em caso de dúvida, pede autorização escrita à empresa.
Quando regresso, tenho direito ao mesmo lugar?+
Sim. O Art. 317.º n.º 5 garante que o trabalhador mantém o direito ao seu lugar de trabalho no fim da licença. Não te podem despedir por causa do regresso nem podem mandar-te para uma função inferior. Se isso acontecer, é violação contratual e podes rescindir com justa causa (Art. 394.º) com direito a indemnização. O regresso é à mesma categoria profissional, com a mesma retribuição (actualizada se a CCT tiver subido durante a tua ausência).
E se sou trabalhador da Função Pública?+
As regras são diferentes. Aplica-se a Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas (LTFP, Lei n.º 35/2014), Arts. 280.º a 283.º. O serviço pode conceder a licença, mas não é obrigado (Art. 280.º n.º 1). A licença de mais de 60 dias para formação é um direito, com recusas previstas na lei (Art. 280.º n.os 2 a 4). Se a licença durar menos de um ano, tens direito a um posto de trabalho no serviço quando voltares (Art. 281.º n.º 4). Em regra, o tempo de licença não conta para a antiguidade (Art. 281.º n.º 2). Há ainda uma licença própria para acompanhar o cônjuge colocado no estrangeiro (Art. 282.º).
Tenho direito a subsídio de desemprego depois da licença sem vencimento?+
Depende. Durante a licença não há descontos para a Segurança Social — esses meses não contam para o prazo de garantia. Se a empresa te despedir logo a seguir ao regresso, podes ter direito ao subsídio se já tinhas o prazo de garantia (360 dias de descontos nos últimos 24 meses) cumprido antes da licença. Se a licença foi longa (1+ ano), podes ter de cumprir novamente o prazo de garantia. Verifica sempre com o IEFP.

Fontes oficiais

6 referências

Este guia é informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Para casos concretos, valida com um advogado ou entidade oficial. Encontraste um erro? Avisa-nos em ola@despacho.pt.